free css templates

Revolução nos Assuntos Militares uma possível Revolução de Costumes?

Baixar artigo formatado 

Natália Diniz Schwether. 

As forças armadas vivenciam uma progressiva aproximação da sociedade civil, atrelada ao impacto das novas tecnologias e de um exército com missões não tradicionais (Hajjar, 2014). Em uma conjuntura demarcada pelo fim da Guerra Fria a necessidade de manutenção de grandes e poderosas instituições militares nacionais foi questionada (Donadio, 2003). Logo, a organização militar passou a buscar novas atividades, a defesa da integridade territorial, as operações de paz, o combate ao narcotráfico e o desenvolvimento regional adentraram o escopo de ações (Hunter, 2005). 

No entanto, foi a tecnologia a grande propulsora das mudanças estratégicas e das táticas militares (Gray, 2004). O avanço tecnológico, por diversas vezes na história, liderou mudanças fundamentais na condução da guerra, a exemplo do uso do tanque, do rádio, do helicóptero, dos robôs e dos veículos remotamente tripulados. Tais tecnologias foram responsáveis por alterarem profundamente a conduta na guerra, em alguns casos demandaram, por exemplo, a criação de uma linha inteiramente nova de serviços (Conti, Surdu, 2009). 

Esse conjunto de alterações e avanços tecnológicos no meio militar é conhecido conceitualmente como a Revolução nos Assuntos Militares (RMA), reflexo por um lado do grande aumento no poder dos computadores, aprimoramento dos componentes físicos e da diminuição dos custos; e, por outro de um esforço para desenvolver uma alternativa à guerra, cada vez menos atrelada a quantidade de material disponível (Davis, 1996). O domínio no campo de batalha iria além de uma supremacia física, para atingir a superioridade informacional (Chapman, 2003). 

Nesse cenário, a manutenção de um grande exército de massas tornou-se obsoleta e o uso da computadorização avançada é imprescindível para manipulação, captação e processamento dos dados (Davis, 1996). A tecnologia alterou o significado e o ato da guerra em si, as fronteiras nacionais passaram a ser de difícil definição e, por muitas vezes, não se tem conhecimento de onde partem os ataques (Conti, Surdu, 2009). Em uma tentativa de lidar com essa nova realidade, conjuntos de artilharia pesada foram substituídos por drones e mísseis de cruzeiro, e forças volumosas e de deslocamento lento deram lugar a unidades menores, mais ágeis e mais letais. 

Contudo, ainda mais importante, foi a alteração que a tecnologia realizou no exercício das tarefas mais elementares das forças armadas, ao diminuir o risco da atuação dos agressores (Manjikian, 2013; Gilli & Gilli, 2016). Distintas habilidades interpessoais e aptidões específicas passaram a ser exigidas, a exemplo de uma maior capacidade de observação em detrimento do combatente (Chapman, 2003). Tarefas que, até então, estavam atreladas a exclusiva aplicação da força, no ambiente cibernético demandam expetises variadas, como fluxos de informações, protocolos, hardwares e softwares (Conti, Surdu, 2009). 

O cenário de substituição da força física por tecnologia complexa (Godfrey, Lilley, Brewis, 2012) incitou alterações, também, na maneira como os soldados se compreendem. Diante de um campo de batalha, no qual a presença física não se faz mais essencial o soldado, símbolo nacional da masculinidade (Nye, 2007), perdeu sua preponderância. Seu espaço foi ocupado pela tecnologia, “na realidade a tecnologia tornou-se a inimiga, a inimiga da masculinidade militarizada” (Godfrey, Lilley, Brewis, 2012, p. 556). 

Com o avanço tecnológico, qualidades masculinas indispensáveis ao soldado, como o sacrifício, a coragem e o medo da vergonha e da desonra, foram alteradas (Nye, 2007). O novo soldado, defensor do ciberespaço, apresenta características físicas distintas do estereótipo e entre suas principais habilidades intelectuais destaca-se a proficiência técnica. Ao abandonarem a ideia de sacrifício até a morte, tornaram-se mais utilitários e a profissão militar aproximou-se, cada vez mais, de uma ocupação como qualquer outra do âmbito civil (Brunetta, 2012). 

Uma vez que, tecnologias de última geração não irão, necessariamente, vencer mais guerras, o que, de fato, elas farão é manter os soldados virtualmente vivos. Portanto, investir em tecnologia não está atrelado apenas com um enorme desejo por vitória, mais importante do que isso é evitar a morte de soldados, expressão de vulnerabilidade e fracasso na guerra (Masters, 2005). 

Isso revela que não apenas o corpo e sua performance foram alterados, mas, pricipalmente, a mentalidade necessária para se executar as tarefas. Práticas tradicionais são incompatíveis com a cultura requerida para conduzir a guerra cibernética. Habilidades, outrora valoradas, como a pontaria, a força, saltos no ar e domínio do fogo, são intrinsicamente diferentes daquelas requeridas para se engajar no meio cibernético. Embora, a integridade, o trabalho em equipe, a dedicação, a capacidade de resolução de problemas sejam similares, as forças armadas carecem recrutar e treinar novos profissionais (Conti, Surdu, 2009). 

“Transcender as técnicas do treinamento militar pode ser a próxima revolução tecnológica” (Al-Kayali, s.a). Uma vez que, novos tempos exigem novos soldados, os quais preenchem os espaços com uma variedade de cores, mais de um sexo e/ou sexualidade (Masters, 2005). 

Destarte, ao considerar, por um lado, que o corpo masculino é essencial para contextualizar a cultura militar (Lande, 2007) e, por outro, que a tecnologia emergiu como uma forma de corrigir a falha desse corpo, suas emoções, culpa e cansaço. É, com esse olhar que se observa uma oportunidade para uma revolução nos costumes, diante da qual o cerne da instituição militar deixa de ser o soldado e passa a ser a tecnologia desenvolvida para ele (Masters, 2010) e, com isso, a esfera hiper-masculinizada das forças armadas é capaz de ampliar o espectro de seus profissionais. 

_________________________________________________________________________________

Al-Kayali, S. (s.a.). Masculinity and the Digital Soldier: Technology in Modern War. Roosevelt Univeristy. 

Brunetta, N. F. (2012). Los Valores predominantes en el soldado postmoderno y su influencia en los Teatros de Operaciones del siglo XXI. (Unpublished especialization’s thesis) Escuela Superior de Guerra Conjunta de las Fuerzas Armadas, Argentina.

Chapman, G. (2003). An introduction to the Revolution in Military Affairs. Paper presented at the XV Amaldi Conference on Problems in Global Security, Helsinki, Finlândia. 

 

Davis, N. C. (1996). An Information-Based Revolution in Military Affairs. Strategic Review, 24(1), 43-53.

 

Donadio, M. (2003). Las Relaciones Cívico-Militares y la Construcción de Instituciones en América Latina: enfrentando las crisis de las jóvenes democracias. RESDAL.

 

Gilli, A. & Gilli, M. (2016). The Diffusion of Drone Warfare. Industrial Organizational, and Infrastructural Constrains. Security Studies, 25(1), 50-84.

 

Godfrey, R., Lilley, S. & Brewis, J. (2012). Biceps, Bitches and Borgs: Reading Jarhead’s Representation of the Construction of the (Masculine) Military Body. Organization Studies, 33(4), 541-62.

 

Gray, C. (2004). Recognizing and Understanding Revolutionary Change in Warfare: the Sovereignty of Context, Strategic Studies Institute.

 

Hajjar, R. (2014). Emergent Postmodern US Military Culture. Armed Forces & Society, 14, 118-145.

 

Hunter, W. (2005). State and Soldier in Latin America: Redefining the Military’s Role in Argentina, Brasil and Chile. Peaceworks, 10.

 

Lande, B. (2007). Breathing Like a Soldier: Culture Incarnate. In: Shilling, C. (Ed.) Sociology and the Body: classical traditions and new agendas. Malden: Blackwell Publishing Ltd.

 

Manjikian, M. (2013). Becoming Unmanned: the gendering of lethal autonomous warfare technology. International Feminist Journal of Politics, 16(1), 48-65.

 

Masters, C. (2005). Bodies of technology. International Feminist Journal of Politics, 7(1), 112-132.

 

Masters, C. (2010). Cyborg soldiers and militarised masculinities. Eurozine. Retrieved from: http://www.eurozine.com/cyborg-soldiers-and-militarised-masculinities/.

 

Nye, R. (2007). Western Masculinities in War and Peace. American Historical Review.