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Reaparelhamento da FAB mais próximo e vantagens já visíveis

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Por: 

Deywisson Ronaldo Oliveira de Souza

Luiz Gonzaga Tawil dos Santos


No último dia 10 de setembro foi entregue em Linköping, na Suécia, a primeira das 36 aeronaves encomendadas à empresa Saab por meio do contrato firmado em 2014 entre o Brasil e o país europeu. Embora fique quase 2 anos em testes e só entre em operação efetiva em 2021, a entrega registra um fato importante na trajetória de modernização tecnológica da aviação de caça e da recapacitação operativa da defesa do espaço aéreo brasileiro.  

O desejo por caças mais avançados tem quase 20 anos. Nasceu com antigo projeto FX que pretendia a aquisição de 12 a 24 aeronaves e foi anunciado ainda na gestão de Cardoso, em junho de 2000, em meio a avançada deterioração dos caças franceses Mirage BR. O projeto que não foi concretizado, ficou para o próximo governo. Com a eleição de Lula em 2002, reabriu-se a concorrência para as possíveis empresas fornecedoras do então FX-2, mas questões internas como a crise econômica de 2008, dificultou justificar frente à opinião pública um investimento tão elevado na aquisição dos novos caças.

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1° voo do Gripen E, novo caça brasileiro. Fonte: Saab


Em 2009, o Presidente Lula da Silva até chegou a anunciar que o Rafale, modelo francês, havia sido o escolhido, mas teve que se retratar após o relatório do Alto Comando da Aeronáutica demonstrar as vantagens do Gripen em relação aos seus concorrentes (PEDONE, 2017). Fatores como os custos de produção e manutenção mais baixos, além da garantia de transferência de 100% da tecnologia solicitadas pela FAB, pela Embraer e demais empresas do setor aeronáutico envolvidas no empreendimento, colocaram o Gripen como favorito.  

A decisão final só veio em 2014, em favor do caça sueco. Foi levado em consideração que o projeto beneficiaria as empresas brasileiras do setor em termos de avanços científicos e tecnológicos, tanto as do ramo civil como militar, com capacidade de torná-las mais competitivas no cenário internacional (SOUZA, 2015).

A parceria, firmada em 2014 e que teve agora mais um avanço significativo com a entrega da primeira aeronave, registra no cenário global de transferência de tecnologia de armas e sistemas de armas o sucesso inicial de um processo de compartilhamento de conhecimento e tecnologia que traz benefícios mútuos para os dois lados envolvidos.

Se por um lado, a Suécia cede a outro país o domínio tecnológico completo dos softwares e sistemas de armas, ela também se abre para novos mercados consumidores e para aprendizados frutos dos desafios técnicos que exigem à adaptação de seus produtos as especificidades dos clientes internacionais.

Do lado brasileiro, a perspectiva de que a indústria nacional também fosse protagonista no processo de planejamento e organização do projeto das novas aeronaves foi decisiva para a escolha da Saab. A possibilidade de construir novas capacidades técnicas e inserir o Brasil na cadeia de produção global de aeronaves de combate são possibilidades reais, como revelou o Presidente da Saab,  Håkan Buskhe (LEITE, 2016).

Entre as empresas brasileiras mais beneficiadas podemos citar a EMBRAER Defesa & Segurança. A companhia é responsável por absorver e gerir de forma autônoma a tecnologia transferida, modificar e adaptar as exigências operativas da FAB. A ATECH – Negócios em Tecnologia S/A, que ficou responsável pela gestão das novas tecnologias transferidas.  A AEL Sistemas S/A, encarregada do design e fabricação dos displays, softwares e tecnologias aviônicas.  

A Selex e a General Eletric Brasil que se associaram a EMBRAER na produção de subsistemas e segmentos de fuselagem já estão equipando o primeiro Gripen entregue na Suécia e vão equipar os demais. A AKAER Engenharia, companhia norueguesa que opera no Brasil e já participa do projeto Gripen desde 2009, antes mesmo da assinatura do contrato da SAAB, tem desenvolvido peças fundamentais para a aeronave, incluindo as asas e a fuselagem.

É importante salientar que esse formato de parceria só foi possível graças a uma série de iniciativas tomadas visando a revitalização da Base Industrial de Defesa (BID). Importantes mudanças no arcabouço político, jurídico e tributário realizadas nos últimos anos, estabeleceram novos parâmetros para o fomento da produção nacional tanto para suprir as demandas internas, quanto para estimular a exportação de armamentos. Foram elas: a Estratégia Nacional de Defesa (END), a Lei 12.598, de Apoio a Indústria da Defesa de 2012, o Regime Especial de Tributação para a Indústria da Defesa (RETID), e a Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP). Essas medidas visavam estimular a produção nacional, e é dentro desse novo contexto autonomista que foi retomado o projeto FX, dando maior ênfase a transferência de tecnologia e a produção local.

Vale salientar que para cada R$ 1 demandado pela aviação geral, R$ 3,71 são adicionados à economia brasileira. Ademais, para cada emprego gerado na aviação geral, outros oito são necessários nos demais setores para manutenção das atividades desse segmento (ABAG, 2014).

 Embora esses números não sejam específicos para o setor de Defesa, é possível observar que ao participarem do projeto Gripen, diversas companhias que atuam no Brasil, são inseridas na cadeia global de produção do caça de combate, podendo inclusive fornecer equipamentos para companhias concorrentes.

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Referências

 LEITE, Humberto. SUÉCIA-BRASIL Parceria para o Futuro. Disponivel em <http://www.fab.mil.br/noticias/mostra/28541/>. Acesso em 18 set. 2019.

PEDONE, Luiz. Science, Technology, and Iinnovation for Defense in Brazil - An Analysis of Transfer of Technology and Challenges of Brazilian Defense Programs: BRASILIANA– Journal for Brazilian Studies. Vol. 5, n.2, 2017.

SOUZA, Deywisson Ronaldo de ; AVILA, Carlos Federico Domínguez; GUEDES, 2017, Marcos Aurélio. Arms Transfer Policies and International Security: the Case of Brazilian-Swedish Co-operation. Rio de Janeiro: Contexto Internacionalvol. 39(1) Jan/Apr 2017

SOUZA, Deywisson Ronaldo Oliveira. 2015. O IMPERATIVO TECNOLÓGICO E PROJETOS ESTRATÉGICOS DE DEFESA: Uma Análise dos Programas de Reaparelhamento das Forças Armadas nos Governos Lula da Silva e Dilma Rousseff. Recife: UFPE.