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Anticientificismo Nos tempos do Novo Coronavírus

Renato Victor Lira Brito

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22/05/2020

A experiência contemporânea da propagação exponencial do SARS-CoV-2, o novo coronavírus, tem proporcionado as mais diversas reflexões sobre as alternativas para o enfrentamento de crises, bem como sobre o quanto podemos, por ora, ponderar as consequências dessa que tem sido considerada uma das maiores pandemias do último século.

Nesse sentido, o impacto do vírus em questão, causador da Coronavirus Disease 2019 (COVID-19), denota o quanto a população mundial é ao mesmo tempo, via de regra, dependente da produção científica e extremamente leiga, para não dizer resistente, à Ciência.

Nas últimas décadas, o que vem a ser entendido como anticientificismo, ou seja, a oposição a tudo relacionado ao fazer científico, bem como seus métodos e a sua aplicação para as demais esferas da vida, tem conquistado cada vez mais espaço em diversos países do mundo, o que, para alguns, aponta para uma tendência global.

No decorrer do tempo, o anticientificismo atraiu uma parcela considerável de pensadores, sendo incentivado por nomes como Friedrich Nietzsche e também encontrando-se em grupos como os estruturalistas, hermenêuticos e pós-modernos, perpetuando, portanto, o discurso anti-ciência entre os mais variados espectros político-ideológicos, desde a extrema direita até os novos movimentos de esquerda (GROSS, 1994; BUNGE, 2014).

Esse movimento não só expandiu o seu domínio dentro da academia, como, com o advento das fake news, disseminadas principalmente através das redes sociais, ganhou proporções até então inimagináveis na sociedade como um todo (ALVES; OLIVEIRA, 2020).

 Nesse ínterim, em 2019, o Instituto Gallup, sob encomenda da Wellcome Trust, identificou que 73% dos brasileiros desconfiam da ciência e 23% acreditam que a produção científica contribui pouco para o desenvolvimento socioeconômico do país. Além disso, em torno de 50% dos entrevistados afirmaram que em algum momento a Ciência foi de encontro às suas convicções religiosas.

Desses, 75% afirmaram que, quando ciência e religião discordam, escolhem a religião. O estudo também relacionou a confiança nos cientistas ao coeficiente de Gini, de maneira que países com maior concentração de renda normalmente tendem a desconfiar mais dos cientistas (DENNETT, 2006; ANDRADE, 2019).

 Sobretudo recentemente, o anticientificismo no Brasil acrescentou à sua base religiosa o teor também populista, de maneira que, no governo Jair Bolsonaro, de 2019 até então, os cientistas têm sido atacados não só discursivamente mas também através de cortes de verbas, de bolsas e demissões, ao mesmo tempo em que é propagado que a comunidade científica é uma elite da qual é preciso retirar os privilégios.

 Considerando a pandemia do SARS-CoV-2, que ora aflige o mundo, é necessário tratar o anticientificismo com a seriedade que o problema impõe. A reação ineficiente dos atores políticos ao fenômeno pode significar centenas de milhares de mortes a mais do que o estimado caso fossem seguidas as orientações internacionais para o enfrentamento dessa doença, que incluem desde cuidados individuais até a quarentena e o isolamento social total como políticas aplicadas pelos governos.

 Dessa maneira, faz-se mister a observação de outros grandes problemas que poderão assolar a humanidade nas próximas décadas, com os exemplos da intensificação da revolução tecnológica e os seus impactos nas esferas do trabalho, das mudanças climáticas, da escassez de água, da super-concentração de renda e também do surgimento de novas pandemias (SAGAN, 1995).

Para enfrentar esses desafios, apresentando soluções e desenvolvendo alternativas, a Ciência permanece como a mais confiável e segura escolha que os atores políticos podem fazer. Em tempo, é fulcral o entendimento das dinâmicas que envolvem o fazer científico.

Alan Chalmers (1993), em “O que é ciência, afinal?”, dispôs-se a apresentar, de maneira simples e sistematizada, as principais vertentes modernas da filosofia da ciência. No capítulo oitavo, ele aborda os paradigmas de Thomas Kuhn (1997), da obra seminal “A Estrutura das Revoluções Científicas”, acerca da progressão do conhecimento através das intituladas revoluções científicas.

Dessa forma, Kuhn (1997) estabelece cinco estágios inerentes ao avanço científico: 1) pré-ciência; 2) ciência normal; 3) crise e revolução; 4) nova ciência normal; 5) nova crise. O nível pré-científico pressupõe a atividade desorganizada que tende a convergir para a proposição de um paradigma, passando então para o segundo nível, da ciência normal, no qual os cientistas buscarão desenvolver teórica e metodologicamente o referido paradigma.

A partir disso, ocasionalmente, os cientistas se depararão com uma crise, que só aquiescerá com a designação de um paradigma alternativo como refutação ao antecessor, o que, uma vez que a comunidade científica institua a vigência do novo paradigma, sancionará a revolução científica, o terceiro momento do progresso do conhecimento. O quarto estágio representa a nova ciência normal resultante, que, por sua vez, se deparará com outras impossibilidades de explicação, culminando no quinto nível, ou seja, uma nova crise de legitimidade que implicará em outra revolução.

 Os avanços da Ciência através das pesquisas podem ser lentos e graduais, principalmente quando direcionados à inovação, mas constituem o que há de mais precioso para a garantia da sobrevivência da sociedade e a redução de danos em momentos de crise. Mais do que nunca, urge a necessidade apregoada por um dos maiores divulgadores científicos, Carl Sagan (1995, p.36), da defesa da Ciência “como uma vela no escuro”.


REFERÊNCIAS

ALVES, Vitor; OLIVEIRA, Thays Felipe David de. Como combater a fake news em tempo de Coronavírus?. Disponível em: <https://rede-ctidc-covid-19-combater-fake-news-em-tempo-de-corona-virus.html>. Acesso em: 10 Abr 2020.

ANDRADE, Rodrigo de Oliveira. Resistência à ciência. Revista Pesquisa Fapesp. Edição 284, out 2019. Disponível em: <https://revistapesquisa.fapesp.br/2019/10/04/resistencia-a-ciencia/>. Acesso em: 10 Mar 2020.

BUNGE, Mario A. In Defense of Scientism. Free Inquiry, vol. 35. 2014.

CHALMERS, Alan F. O que é ciência, afinal? São Paulo, Brasiliense, 1993.

DENNETT, Daniel D. Quebrando o encanto. A religião como fenômeno natural. São Paulo: Globo, 2006.

GROSS, Paul R.; LEVITT, Norman. Higher Superstition: The Academic Leftand Its Quarrels With Science. Baltimore, Md.: Johns Hopkins University Press. 1994.

KUHN, Thomas S. A Estrutura das Revoluções Científicas. 5. ed. São Paulo: Editora Perspectiva S.A, 1997.

SAGAN, Carl. The Demon-Haunted World: Science As a Candle in the Dark. Random House. 1995.