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Política Econômica x Ciência:

De que lado está a razão?

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Por: 

Patrícia Fernandes

Marcos Aurélio Guedes de Oliveira

05/04/2020

Negar o potencial letal da COVID-19 é apostar no acaso e desdenhar da ciência. É privilegiar o lado econômico em detrimento do humano: é falta de empatia. A Suécia, país que continua aberto à movimentação de pessoas em seu território, anda na contramão de medidas mais rígidas adotadas por seus vizinhos europeus Noruega, Dinamarca e Reino Unido. Ao jornal britânico The Guardian, Anders Tegnell, epidemiologista do governo da Suécia, defende que escolas, bares e restaurantes, estações de esqui, clubes esportivos, cabeleireiros, todos devem permanecer abertos. A exceção são as universidades, que foram fechadas, bem como eventos foram limitados a 50 pessoas.

O argumento mais forte de Tegnell é o de que, na Suécia, os maiores de 70 anos já não vivem com adultos jovens e crianças. Ele defende que o fechamento de escolas obrigaria um quarto dos pais (médicos e enfermeiras) a ficarem em casa, prejudicando o serviço de saúde, ou prejudicaria a precaução com os idosos, caso eles fossem chamados a cuidar de crianças. Mesmo assim, seus métodos são contestados por mais de 2.000 pesquisadores universitários suecos e por epidemiologistas importantes, que se opõem à posição da Agência de Saúde Pública sueca. Contraditoriamente, ele também assume que existe o risco de a Suécia entrar em um cenário como o da Itália: “não ficaria surpreso se acabasse da mesma maneira para todos nós, independentemente do que estamos fazendo.", disse ele ao The Guardian.

O comportamento da Suécia vai na contramão do estudo realizado pelo que Imperial College, do Reino Unido, cujas projeções fizeram, por exemplo, a Terra da Rainha mudar de opinião em sua postura de não adotar medidas enérgicas contra a pandemia. Foram esses mesmos estudos que fizeram o Presidente Norte-americano, Donald Trump, rever seus planos de manter o país funcionando. Para os EUA, as previsões foram as seguintes:

GRÁFICO 1: itinerário do contágio à imunização/morte de pacientes com COVID-19 nos EUA

Mobirise

(FONTE: The Imperial College, 2020)

A expectativa de Trump é a de que, em 3 semanas, os EUA atingirão o pico da crise, entendendo-se que, no dia 1 de junho, ela estará superada. Sua assessora, Dra. Deborah Birx, disse que eles trabalham com 12 modelos diferentes de projeção incluindo o do Imperial. Foi por conta disso que Trump abandonou o objetivo de reabrir o país na Páscoa. A meta, agora, é tentar diminuir para 100 mil a previsão de mortes nos EUA. O líder americano assustou-se com a possibilidade de perder 2 milhões de americanos e declarou estar feliz por defender a quarentena.

Mas pode-se supor o mesmo para o Brasil? O Imperial College apresentou os seguintes prognósticos, considerando a possibilidade de lockdown (rígido distanciamento social, limitação de circulação nas ruas e manutenção apenas de negócios essenciais):

TABELA 1: projeções do Imperial College para a aplicação de lockdown no Brasil

Mobirise

(FONTE: The Imperial College, 2020)

O caso da Suécia se enquadraria na medida de contenção tipo 2 (distanciamento social) e o dos Estados Unidos, na medida de contenção tipo 4 (distanciamento social + quarentena tardia) – mas os números apresentados seriam outros, considerando-se, obviamente, as variáveis particulares a cada um desses países. A atual situação brasileira é próxima ao do tipo 5 (suspensão precoce), mas pode vir a se tornar a tipo 1 (rotina normal), caso seja cumprido o desejo do Presidente Jair Bolsonaro, tornado público em cadeia de rádio e tv, no dia 24 de março. 

Já o modelo formulado pelos pesquisadores José Dias do Nascimento (físico do Departamento de Física Teórica e Experimental da Universidade Federal do Rio Grande do Norte) e Wladimir Lyra (astrônomo da Universidade do Estado do Novo México, nos EUA), que usa equações conhecidas por astrofísicos e astrônomos para a compreensão de fenômenos da natureza, traça cenários comparativos diante de avanço da doença, apresentando perspectivas otimistas e pessimistas.

O modelo usado se chama SIR, porque divide a população em: suscetíveis (a contrair o vírus), infectados e removidos (curados ou mortos). "É um modelo bem estabelecido na física, desde os anos 1970. O que tem de novo nesse nosso modelo é a aquisição de dados em tempo real e recálculos dos parâmetros para previsão", afirma Nascimento ao TILT – o canal sobre tecnologia do UOL. O prognóstico brasileiro é assim comparado à realidade italiana:

GRÁFICO 2: projeção de número de mortos pelo Coronavírus, segundo modelo desenvolvido pelos pesquisadores brasileiros.

Mobirise

(FONTE: projeto SIR, de LYRA e NASCIMENTO, 2020)

O comparativo entre os gráficos de Itália e Brasil mostra como este país pode estar em rota perigosa: "Na Itália, mesmo tendo o aviso dos chineses, se demorou muito a ter as reações. Na China, dá para ver hoje que foi impressionante a operação de guerra entre isolamento e muitos testes. Na Coreia do Sul, o isolamento não foi tão grande, porém, eles testaram milhares de pessoas por semana que corresponde mais do que os Estados Unidos testaram por mês", falou Nascimento. 

No pior cenário para o Brasil (aquele em que a vida segue sem restrições), são previstas até 2 milhões de pessoas mortas, com o colapso podendo ocorrer entre o final de abril ou início de maio. O cientista ainda prevê como crucial para esse quadro pessimista o retardo na implementação de teste em larga escala: isso “vai ser um fator determinante daqui a 15 dias, quando infectados de hoje começarem a aparecer efetivamente nas distribuições das mortes e nos casos mais graves.".

Tantos prognósticos vindos de estudos científicos realizados por pesquisadores e instituições renomadas apenas apontam para um prognóstico: sem o isolamento imediato da população, haverá inúmeras baixas, independente de faixa etária. As próprias medidas tomadas pela maior parte das nações (ações, inclusive, chanceladas e orientadas pela Organização Mundial de Saúde) apontam, ostensivamente, para a necessária compreensão de que a COVID-19 é um problema sério, que requerer medidas extremas. Ao ignorar esses apelos, certos governos privilegiam o achismo sobre o uso da razão, em nome de interesses outros, que não o do bem-estar humano. Desdenhar disso, é IRRESPONSAVELMENTE apostar no acaso.


REFERÊNCIAS

THE GUARDIAN. As the rest of Europe lives under lockdown, Sweden keeps calm and carries on: all its neighbours have shut up shop to beat coronavirus but the Swedes insist ‘we are not in quarantine’. Is that the right approach?.

Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2020/mar/28/as-the-rest-of-europe-lives-under-lockdown-sweden-keeps-calm-and-carries-on

Acesso: 30 de março de 2020.

MADEIRO, M. Como modelo científico usado na astrofísica prevê casos de covid-19 no país. In: TILT – o canal sobre tecnologia do UOL. Seção de Astronomia.

Disponível em: https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2020/03/29/como-modelo-cientifico-usado-na-astronomia-preve-covid-19-avancar-no-brasil.htm

Acesso: 30 de março de 2020.